Lampião, o homem que previa tudo
O terrível chefe dos cangaceiros, que durante vinte
anos espalhou o pavor pelos sertões nordestinos, parecia pressentir o fim
trágico que o aguardava.
Contam os que o conheceram de perto que Lampião, já há
algum tempo, andava abatido e desconfiado. Dizia aos companheiros mais íntimos
que pressentia a aproximação de dias sombrios. “A vida do cangaceiro é curta”,
teria dito certa vez, “e o meu tempo está chegando.”
Apesar disso, não mudava de hábitos. Continuava a
percorrer as fazendas e vilas, mantendo o domínio pelo medo e pela fama de
invencível. Era supersticioso e acreditava em agouros. Não tomava decisão
alguma sem antes consultar seus sinais, e dizia que um dia a sorte lhe viraria
as costas.
Segundo relatos de coiteiros, nas últimas semanas
antes da emboscada em Angico, Lampião andava inquieto. Dormia mal e evitava
acampamentos prolongados. Às vezes, permanecia horas calado, olhando para o
horizonte. Dizia que sonhava repetidamente com sangue e com uma cruz de ferro
fincada no chão.
Mesmo assim, não abandonou a confiança em sua astúcia.
“Nunca me pegam vivo”, dizia. Tinha por hábito mudar de trajeto de última hora,
e poucos sabiam realmente para onde ia. Sua desconfiança era tamanha que não
permitia mais visitas de estranhos.
A notícia de sua morte, divulgada em todo o país,
causou espanto e incredulidade. Muitos sertanejos não acreditaram de imediato.
“Lampião é encantado”, diziam. Mas as fotografias de Angico puseram fim às
dúvidas: o rei do cangaço estava morto, e com ele ruía uma das mais temidas
organizações armadas do Nordeste.
Conta-se que, na véspera da emboscada, Lampião teria
dito a Maria Bonita: “Se for pra morrer, morro de frente.” Poucas horas depois,
ao amanhecer, o tiroteio ecoava nas margens do rio São Francisco.
Assim terminou Virgulino Ferreira da Silva, o homem
que previa tudo, mas não conseguiu escapar do destino.
Livros sobre o cangaço:
bit.ly/49uEqv5

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