Cangaceiro Meia-Noite uma Lenda do Sertão

 


No sertão abrasado pelo sol e pelo destino, surgiu um nome que ecoaria entre as serras e o medo: Meia-Noite. Nascido Antonio Augusto Feitosa, um negro forte e valente de Olho D’Água do Casado, Alagoas, carregava no apelido não só a cor da pele, mas o hábito de surgir como sombra pela madrugada, tão imprevisível quanto a hora sombria que lhe dava nome. Com apenas 22 anos, já era temido por muitos e respeitado até por Lampião.

Em 1924, participou de um dos ataques mais devastadores do cangaço: o saque à cidade de Sousa, na Paraíba. O bando de mais de oitenta homens espalhou terror e destruição, saqueando com fúria casas, comércios, até aliados foram vítimas. O próprio Chico Pereira, outrora incentivador do ataque, teve que intervir para conter a fúria dos cangaceiros.

Mas a fama de Meia-Noite cresceu não só pelo que saqueava, mas pela ousadia diante do próprio Lampião. Após descobrir que fora roubado em nove contos de réis dentro do bando, não se calou. Enfrentou os irmãos do chefe, sacou o fuzil Mauser e encarou o próprio “Rei do Cangaço”. Lampião, diante da valentia do seu homem, preferiu evitar um banho de sangue: pagou-lhe a quantia e, ainda assim, pediu que Meia-Noite entregasse as armas. O cangaceiro, desconfiado, recusou e desafiou o grupo inteiro. O silêncio diante de seu fuzil em punho foi a prova de que ninguém ali duvidava de sua coragem. Foi expulso do bando e partiu solitário pelas trilhas do sertão.

Motivado pelo amor por Zulmira, sua companheira, Meia-Noite voltou à perigosa região de Princesa, mesmo com a caçada à sua cabeça. Armado até os dentes, com ela ao lado empunhando um rifle Winchester, vagava pelas veredas, mudando de esconderijo constantemente. Protegido por moradores em troca de dinheiro e respeito, vivia como uma sombra implacável.

Até que, delatado por invejosos, foi localizado no sítio Tataíra, onde protagonizou um dos combates mais incríveis e lendários da história do cangaço. Enfrentou sozinho uma força de mais de cem homens armados. Trancado em uma casa de farinha, disparava sem cessar, enquanto Zulmira, corajosa, municiava suas armas.

Gritava, xingava, cantava e atirava. Resistiu por quatro horas, até que pediu garantia de vida para sua amada. Zulmira foi autorizada a sair, e Meia-Noite continuou o combate com ainda mais fúria. Quando os reforços policiais chegaram, cercando de vez o local, todos pensaram que seria seu fim. Mas o impossível aconteceu.

De dentro da casa, Meia-Noite gritou que sairia. O silêncio tomou conta do ambiente. Em seguida, jogou um objeto para fora. Quando os policiais abriram fogo, ele aproveitou o momento de distração, saiu correndo aos gritos, atirando, saltando por entre os soldados, ferido na perna, mas sem se entregar. Baleado, caiu, levantou, pulou cerca, sumiu no mato. Inacreditavelmente, fugiu.

Encontrou refúgio com um agricultor e entregou parte do dinheiro a um amigo, dizendo: “Se voltar, pego de volta; se não voltar, é seu”. Mesmo ferido, seguiu até a casa de Manoel Lopes Diniz, o temido “Ronco Grosso”, homem de confiança do coronel José Pereira. Este, admirando sua coragem, cuidou dos ferimentos com ervas do sertão e o escondeu numa gruta no alto da serra. Mas a proteção duraria pouco.

O coronel, temendo a lenda que crescia em torno do valente cangaceiro, deu uma ordem seca: “Traga as duas orelhas dele.” Ronco Grosso, mesmo relutante, não podia desobedecer. Na calada da noite, com outro jagunço, atraiu Meia-Noite ao descuido e o executou. Ali, entre pedras e silêncio, caiu um dos mais valentes cangaceiros da história nordestina. Mas sua lenda, alimentada pelo fogo da Tataíra, pelo amor a Zulmira e pelo desafio ao próprio Lampião, jamais foi sepultada.

A bravura de Meia-Noite sobrevive até hoje no sertão como um trovão distante que ainda ecoa, lembrando que há homens que, mesmo quando vencidos, jamais são derrotados.


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